Ten: o álbum que transformou dor em rock de arena — e mudou o Pearl Jam para sempre
Por Redação RockFuel ·
Lançado antes do Nevermind e ignorado por meses, Ten chegou devagar e ficou para sempre. A resenha faixa por faixa do disco que transformou Eddie Vedder numa voz de geração.
Ten saiu em 27 de agosto de 1991, quatro semanas antes do Nevermind, e quase ninguém percebeu. O disco ficou fora do top 100 da Billboard por três meses. Nenhum hit imediato, nenhuma explosão de clipe.
O que aconteceu depois foi outra coisa: uma lenta conquista de público, alimentada por shows incessantes e por músicas que não precisavam de momento para funcionar. Quase um ano depois do lançamento, Ten chegou ao número 2 da Billboard. É o disco de estreia mais vendido da história do Pearl Jam: mais de 13 milhões de cópias só nos Estados Unidos, 13 vezes platina pela RIAA.
A história desse disco começa em San Diego, com um cara que não morava em Seattle e mal conhecia a banda. Eddie Vedder recebeu uma fita demo instrumental de Stone Gossard via Jack Irons, ex-baterista do Red Hot Chili Peppers. Gravou vocais por cima, devolveu pelo correio, foi chamado para uma audição.
Quando chegou a Seattle, encontrou Chris Cornell gravando o Temple of the Dog no mesmo estúdio, o London Bridge, e acabou cantando "Hunger Strike" antes mesmo de gravar seu próprio disco. O Pearl Jam, ainda chamado de Mookie Blaylock, entrou em seguida no mesmo estúdio com o mesmo produtor.
Como Ten foi montado
A gravação começou em março de 1991 com o produtor Rick Parashar, que acabara de trabalhar com Ament e Gossard no Temple of the Dog. As sessões foram rápidas — menos de um mês — porque a banda já tinha quase todo o material escrito.
A maioria das músicas nasceu de jams instrumentais de Stone Gossard e Jeff Ament, alguns com raízes nas sessões inacabadas do Mother Love Bone. Vedder chegou com a "fita Momma-Son": demos instrumentais com vocais que ele gravou em casa antes da audição.
Há um detalhe de bastidor que diz muito sobre como o disco foi feito. A faixa "Alive" havia sido gravada numa sessão anterior, em janeiro. Quando a banda tentou regravar em março, não conseguiu capturar a mesma energia da demo. Decidiu usar a gravação original — com um solo novo de McCready adicionado na mixagem final. O baterista Dave Krusen, que tocou no disco inteiro, teve de deixar a banda por problemas pessoais antes mesmo do lançamento. Não chegou a fazer parte da turnê.
Parashar não foi produtor passivo. Tocou piano em "Black", órgão em várias faixas, co-escreveu as harmonias vocais que engrossam os refrões de "Black" e "Garden". A mixagem ficou com Tim Palmer no Ridge Farm Studio, na Inglaterra. A capa foi criada por Jeff Ament com a ideia de mostrar a banda unida, erguendo os braços juntos. O plano era que saísse em bordô. A Epic lançou em rosa — e esse rosa acidentalmente virou parte da identidade visual do disco.
O nome "Ten" vem do número que Mookie Blaylock, jogador de basquete do New Jersey Nets, usava na camisa — e era o nome original da banda antes que a Epic exigisse a mudança por questões legais.
Faixa por faixa
1. Once
A abertura soa como uma declaração de intenção. Pesada, obscura, com Vedder numa voz grave que poucos ouvintes tinham ouvido num disco de estreia. "Once" abre uma trilogia narrativa que segue em "Footsteps" e fecha na faixa bônus "Alive (Reprise)". O riff de Gossard é uma das primeiras provas de que o Pearl Jam não era só mais uma banda de Seattle tentando soar como Nirvana.
2. Even Flow
O single que ajudou a empurrar o disco para cima nas paradas em 1992. O riff tem swing, a bateria empurra, e Vedder entrega uma performance que oscila entre raiva controlada e explosão. A letra fala de um homem em situação de rua — Vedder escreveu sobre alguém que via dormindo do lado de fora do apartamento dele em San Diego. É uma das faixas que mostraram desde o início que o Pearl Jam não estava escrevendo sobre si mesmo.
3. Alive
A faixa mais complexa do disco, e a única com uma gravação de janeiro que sobreviveu intacta. O riff vem de uma influência de Stevie Ray Vaughan que McCready carregava desde uma banda anterior.
Vedder escreveu a letra a partir de uma revelação familiar perturbadora que recebeu pouco antes de gravar. A banda tentou regravar em março, não fechou, e ficou com a tomada original. O solo no fim foi adicionado na mixagem.
4. Why Go
Mais urgente e mais punk do que as faixas anteriores. Fala sobre o internamento psiquiátrico de adolescentes — Vedder escreveu a partir de uma história real de alguém próximo. Tem uma velocidade que contrasta com o peso dramático de "Alive" e "Once". O disco não batia no mesmo tom o tempo todo.
5. Black
A balada do disco — e o ponto de maior tensão entre banda e gravadora. A Epic queria lançar "Black" como single. Vedder recusou. A frase que ele disse a Cameron Crowe na Rolling Stone de 1993 resume a posição da banda: não escreveram as músicas para fazer hits. As rádios americanas passaram a tocar a faixa por conta própria, sem single oficial, e ela chegou ao número 3 nas paradas de rock. Parashar tocou piano; é uma das composições mais pessoais do disco.
6. Jeremy
A faixa mais conhecida do disco, com um clipe que foi assunto em todos os canais de MTV de 1992 a 1993. A letra é baseada em dois eventos reais: um estudante do Texas, Jeremy Wade Delle, que tirou a própria vida diante dos colegas de classe em janeiro de 1991, e uma história que o próprio Vedder carregava de um amigo de infância que havia atirado para o teto da escola. O solo de McCready virou referência de guitarra dos anos 90. O vídeo ganhou quatro VMAs.
7. Oceans
A faixa mais etérea do disco. Vedder era surfista — e essa origem em San Diego aparece no clima da faixa, que soa como areia molhada entre o peso das outras. Não tem o mesmo peso dramático, mas o álbum precisa dessa pausa. Foi lançada como single apenas para videoclipe fora dos EUA, em dezembro de 1992.
8. Porch
Uma das músicas mais ao vivo do disco, cheia de energia bruta. Vedder costumava escalar estruturas nos shows enquanto cantava "Porch" — uma das imagens mais associadas à lenda ao vivo do Pearl Jam. A faixa crescia e mudava a cada apresentação; a versão de estúdio é uma fotografia de um momento de energia que a banda não continha.
9. Garden
Lenta, pesada e atmosférica. "Garden" é uma das faixas que mais se aproximam do som de arena que o Pearl Jam desenvolveria nos discos seguintes. Parashar contribuiu com harmonias vocais que engrossam o refrão. É uma música que funciona melhor em volume alto e num espaço grande.
10. Deep
A faixa mais pesada do disco. Gossard levou ao limite a influência do Led Zeppelin — McCready confirma a referência em entrevistas. É uma das músicas em que o "classic rock" que os críticos da época apontavam no Pearl Jam fica mais evidente. Na época, isso era motivo de crítica. Com o tempo, passou a ser visto como parte do que tornava o disco singular dentro do grunge.
11. Release
O fechamento catártico. "Release" é a música mais abertamente emocional do disco, com Vedder deixando a voz andar num espaço aberto. É sobre o pai biológico que ele nunca conheceu — soube da existência do homem tarde demais. O disco fecha com uma faixa instrumental escondida, chamada "Master/Slave", com um baixo fretless de Ament que ele mesmo descreveu como tributo ao músico japonês Mick Karn.
O que envelheceu bem
A produção de Tim Palmer, que a banda sempre questionou por soar limpa demais para o gosto deles, é hoje um dos pontos fortes do disco. O reverb generalizado que alguns críticos chamaram de "arena rock" é parte do que faz "Black" e "Alive" continuarem funcionando em 2024. Ten não parece um disco de era; parece um disco que foi feito para durar.
As letras de Vedder também envelheceram sem concessões. "Jeremy", "Alive" e "Even Flow" falam de traumas e de invisibilidade social de um jeito que não precisou se atualizar. E a guitarra de McCready — que ele mesmo minimizava na época, dizendo que Stone e Jeff construíram o disco — ficou como uma das guitarras mais copiadas dos anos 90.
O que pode dividir opiniões
O Pearl Jam foi acusado, desde o lançamento, de ser uma versão comercial do underground de Seattle. A produção mais polida do que a dos peers da cena, a estética de arena, a voz de barítono com referências explícitas ao Led Zeppelin e ao Jimi Hendrix — tudo isso gerou desconfiança de parte da crítica que preferia o caos de Nirvana ou o peso estranho do Soundgarden.
Essa tensão está no disco. Ten é, de fato, mais perto do hard rock dos anos 70 do que do punk que alimentava o grunge mais cru. Os melhores momentos do álbum, como "Alive", "Black" e "Jeremy", funcionam justamente porque não tentam soar sujos. Mas isso também significa que, para quem buscava ruptura, o disco podia parecer calculado. As duas leituras têm fundamento.
Se quiser entender as diferenças entre os dois lados dessa equação, vale ler o comparativo Nirvana vs Pearl Jam que publicamos aqui no RockFuel — e também a resenha completa do Nevermind, para ouvir os dois lados da mesma cidade.
Análise RockFuel
Ten é o disco que provou que o grunge cabia num estádio sem abrir mão do que o tornava interessante. A dor nas letras era real, escrita por um vocalista que chegou a Seattle de San Diego num avião, sem histórico, com a voz e as palavras na bagagem de mão.
O que o Pearl Jam fez com Ten foi diferente do que o Nirvana fez com Nevermind. Cobain derrubava paredes; Gossard e Ament as construíam maiores. Os riffs são grandes, as melodias são grandes, os refrões são feitos para encher espaços. Enquanto Kurt Cobain desconfiava do próprio sucesso, Vedder estava construindo um repertório para tocar em festivais por décadas. Nenhuma das duas abordagens é mais verdadeira que a outra.
Para quem quer entender o grunge além do Nirvana, Ten é o próximo disco a ouvir. E para quem quer saber por onde começar, o guia de álbuns essenciais do grunge que publicamos tem a trilha completa.
Veredito RockFuel
Nota RockFuel: 9/10. Ten não precisa ser defendido — o tempo fez isso por ele. Tem peso, tem melodia, tem letras que sustentam e uma voz que ninguém havia ouvido antes em nenhum disco de estreia do rock alternativo.
Perde um ponto pela produção que a própria banda questionou — não por soar ruim, mas porque a versão remixada por Brendan O'Brien para o 20º aniversário é genuinamente melhor. Mesmo assim, é um disco de 1991 que ainda funciona inteiro, do começo ao fim, sem pular faixa.
Fontes e referências
- https://en.wikipedia.org/wiki/Ten_(Pearl_Jam_album)
- https://riffology.co/posts/the-making-of-ten-by-pearl-jam/
- https://www.rollingstone.com/feature/pearl-jams-ten-10-things-you-didnt-know-250550/
- https://www.billboard.com/music/rock/pearl-jam-ten-album-anniversary-7487854/
- https://www.thisdayinmusic.com/classic-albums/pearl-jam-ten/