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Century Child: o disco em que o Nightwish encontrou a própria voz

Por Redação RockFuel ·

Orquestra de verdade, um segundo vocalista e um clima de trilha sombria: Century Child, de 2002, é a transição que definiu o Nightwish que conhecemos hoje.

Century Child: o disco em que o Nightwish encontrou a própria voz

Tem um momento na carreira de toda banda em que ela decide o que quer ser quando crescer. Para o Nightwish, esse momento foi Century Child, de 2002. O quarto disco da banda finlandesa é onde o power metal veloz dos primeiros álbuns dá lugar a algo mais sombrio, mais teatral e mais ambicioso: orquestra de verdade, segundo vocalista e um clima de trilha de filme que definiria o som da banda dali em diante.

O que pouca gente percebe é o quanto esse disco nasceu de um momento ruim. O compositor Tuomas Holopainen estava passando pela fase que ele mesmo descreveu como a mais entediante e difícil da vida — e isso vazou para dentro da música. Century Child é bonito, mas é um tipo de beleza que dói.

O que estava acontecendo com o Nightwish em 2002

Depois de Wishmaster (2000), um disco mais positivo e veloz, o Nightwish já era nome grande na cena de metal sinfônico europeia. Mas Holopainen — tecladista, principal compositor e cabeça criativa do grupo — queria mudar de direção. Numa entrevista à revista Perkele em 2002, ele explicou que o tema central que emergiu das letras foi a infância e a perda da inocência, e admitiu que aquele tinha sido o período mais difícil da própria vida, refletido diretamente na música.

O disco trouxe duas mudanças estruturais grandes. A primeira: Marko Hietala, baixista e vocalista vindo do Tarot, entrou como membro fixo e segundo vocalista — inaugurando a dinâmica "a bela e a fera" entre a voz operística de Tarja Turunen e o vocal masculino mais áspero de Marko. A segunda: foi o primeiro álbum do Nightwish gravado com uma orquestra sinfônica de verdade, a Joensuu City Orchestra, e coral, em vez de apenas teclados simulando arranjos.

Como o álbum foi montado

Century Child foi gravado entre janeiro e abril de 2002, nos estúdios Caverock (em Kitee, cidade natal da banda) e Finnvox (em Helsinque). A produção ficou com Tuomas Holopainen e Tero "TeeCee" Kinnunen. A entrada da orquestra e do coral, com arranjos conduzidos por Riku Niemi, mudou a escala do que o Nightwish podia fazer: as faixas ganharam camadas cinematográficas que os discos anteriores só sugeriam.

Holopainen sempre deixou claro que não era um álbum conceitual formal — as letras não contam uma história única. Mas todas giram em torno do mesmo núcleo emocional: inocência perdida, solidão, desencanto. Ele chegou a dizer que o Nightwish era, para ele, uma forma de escrever um diário sobre a própria vida. Em Century Child, esse diário estava num capítulo escuro.

O disco foi um sucesso comercial imediato na Finlândia: estreou em primeiro lugar, foi certificado duplo de platina no país e terminou como o segundo álbum mais vendido de 2002 por lá. Também entrou forte nas paradas alemãs (top 5) e austríacas, marcando a expansão da banda para fora da Escandinávia.

Faixa por faixa

1. Bless the Child

A abertura já avisa que o jogo mudou. Seis minutos que começam com um trecho falado e crescem em camadas de orquestra, coral e teclado antes de a banda entrar com peso. É a faixa que Holopainen apontou como o ponto onde "tudo começa" no tema do disco. Tarja entrega uma performance vocal contida e dramática, e a música soa como uma declaração de propósito: o Nightwish agora é grande, sombrio e teatral.

2. End of All Hope

A faixa mais veloz e mais próxima do power metal dos discos antigos. É um respiro de energia direta no meio de um álbum pesado em atmosfera, com riff acelerado e refrão que ainda hoje aparece nos shows. Holopainen disse que ela traduz o sentimento exato daquele momento da vida dele — e a urgência se ouve.

3. Dead to the World

Aqui Marko Hietala já mostra a que veio: a faixa equilibra a voz dele e a de Tarja, com um clima quase de rock de rádio dentro da estética sinfônica. É uma das mais acessíveis do disco, com refrão grudento e produção mais limpa. A letra carrega o desencanto que atravessa todo o álbum: o mundo não tem mais nada a oferecer.

4. Ever Dream

Uma das grandes baladas de poder da carreira do Nightwish. Tarja brilha na melodia ascendente, e o arranjo orquestral cresce até um clímax que virou marca registrada da banda. É a faixa que serviu de modelo para boa parte das baladas que viriam depois — bonita sem ser açucarada, grandiosa sem perder o peso.

5. Slaying the Dreamer

A faixa mais raivosa do disco. Marko assume boa parte dos vocais, com direito a gritos, e a letra é abertamente irritada — uma resposta de Holopainen a quem o cercava na época. É o Nightwish mais agressivo, com um trecho falado tenso no meio. Divide opinião: para uns é catártica, para outros é a mais deslocada do conjunto.

6. Forever Yours

Volta ao terreno melódico e melancólico, com Tarja e Marko se alternando. Não é das faixas mais lembradas do disco, mas cumpre a função de manter o clima emocional sem quebrar o ritmo. A orquestra trabalha aqui de forma mais discreta, sustentando em vez de dominar.

7. Ocean Soul

Uma das mais introspectivas do álbum. O tema do mar e da solidão aparece numa das letras mais diretamente tristes de Holopainen. A faixa tem um clima frio, quase resignado, e mostra como o disco usa a beleza para falar de desamparo. É o Nightwish baixando o volume sem perder o peso emocional.

8. Feel for You

Rock mid-tempo com refrão forte, das mais diretas do disco. Não tem a ambição cinematográfica das faixas maiores, mas é uma das mais imediatas do disco, com Tarja num registro mais contido. É a faixa que mais se aproxima de uma canção pop de rock dentro da embalagem sinfônica.

9. The Phantom of the Opera

A escolha mais ousada do disco: um cover do clássico do musical de Andrew Lloyd Webber. Tarja e Marko assumem os papéis de Christine e do Fantasma num dueto que soa surpreendentemente natural para a banda — o teatro do metal sinfônico encontrando o teatro de verdade. Para parte da crítica, foi um sinal de falta de ideias originais; para o público, virou um dos momentos mais queridos do show. As duas leituras têm fundamento.

10. Beauty of the Beast

O grande final: uma suíte de mais de dez minutos em três partes ("Long Lost Love", "One More Night to Live" e "Christabel"). É a faixa mais ambiciosa do disco e, para muitos, o ápice. Tarja e Marko constroem um diálogo dramático que cresce em intensidade até um clímax orquestral. É aqui que Century Child mostra para onde a banda estava indo: épicos longos, narrativos, quase operísticos. O futuro do Nightwish está inteiro nesses dez minutos.

O que envelheceu bem

A ambição. Century Child apostou em orquestra de verdade, num segundo vocalista e em faixas longas e narrativas num momento em que isso ainda não era a fórmula consolidada do metal sinfônico. "Bless the Child", "Ever Dream" e "Beauty of the Beast" continuam entre as melhores coisas que a banda já fez, e a entrada de Marko Hietala — que ficaria quase 20 anos no grupo — se prova uma das decisões mais importantes da carreira do Nightwish.

A performance de Tarja Turunen também envelheceu muito bem. Aqui ela soa mais dramática e controlada do que nos discos anteriores, encaixando a voz operística dentro das canções em vez de apenas exibi-la. É o disco em que a química "bela e fera" começa a funcionar de verdade.

O que pode dividir opiniões

Nem tudo é unânime. Para parte da crítica, o cover de "The Phantom of the Opera" e a repetição de fórmulas dos discos anteriores indicavam uma banda com menos ideias originais do que ambição. O AllMusic e veículos de prog na época apontaram que algumas faixas soavam como releitura do que o Nightwish já tinha feito, e que o disco fica abaixo do que a banda alcançaria depois.

O excesso de bombástico também cansa parte dos ouvintes: o disco mantém o volume dramático ligado quase o tempo todo, e quem não curte metal sinfônico pode achar tudo grandioso demais. E "Slaying the Dreamer", com sua raiva explícita, soa deslocada para alguns no meio de um álbum tão melancólico. São críticas justas — Century Child é um disco de transição, com os tropeços que toda transição carrega.

Análise RockFuel

Century Child é o disco em que o Nightwish parou de ser uma boa banda de power metal sinfônico e começou a virar a coisa maior e mais teatral que conhecemos hoje. Não é o álbum mais perfeito da banda — discos posteriores refinariam essa fórmula com mais consistência —, mas é o mais decisivo. Quase tudo que o Nightwish faria nos anos seguintes está em embrião aqui: a orquestra, os épicos longos, a dinâmica de dois vocais, o tom cinematográfico.

O que dá peso ao disco é que essa ambição toda nasceu de um lugar honesto. Holopainen não estava calculando um som comercial; estava escrevendo a partir de um período difícil da própria vida, e a melancolia que atravessa as letras é real. Isso impede que o disco soe apenas pomposo. Por baixo da orquestra e do coral, há um desencanto genuíno que dá liga ao conjunto.

A entrada de Marko Hietala merece destaque à parte. A dinâmica entre a voz dele e a de Tarja não só definiu Century Child como sustentou a banda pelas duas décadas seguintes. Poucas decisões de formação tiveram tanto impacto numa banda de metal quanto essa.

Veredito RockFuel

Nota RockFuel: 8,5/10. Century Child não é o disco mais redondo do Nightwish, mas é o mais importante para entender quem a banda viria a ser. É a transição do power metal para o épico sinfônico cinematográfico, conduzida com ambição real e sustentada por uma melancolia honesta. Tem tropeços — o bombástico constante, uma ou outra faixa deslocada —, mas entrega momentos que estão entre os melhores da carreira. Para quem quer entender o Nightwish de verdade, é parada obrigatória: aqui é onde a banda encontrou a própria voz.

Fontes e referências

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