Master of Puppets: o disco que provou que thrash podia ser arquitetura
Por Redação RockFuel · · Nota RockFuel: 9,5/10
Quatro décadas depois do lançamento, o terceiro álbum do Metallica ainda bate — não pela memória afetiva, mas pela solidez das composições. Uma escuta atenta revela por que esse disco resiste.
Quatro décadas e nenhuma desculpa para continuar de pé
Há discos que sobrevivem por nostalgia e há discos que sobrevivem porque foram construídos para isso. Master of Puppets é do segundo tipo. Ouvir o terceiro álbum do Metallica hoje — sem o peso do contexto histórico, sem a reverência automática — ainda é uma experiência de impacto, porque as composições têm estrutura real, os riffs têm função e o disco inteiro obedece a uma lógica interna coerente.
Para quem está chegando agora, é o ponto de entrada certo. Para o fã antigo, é o disco que explica por que todo o resto veio depois.
O momento em que a banda decidiu crescer
Em 1985, o Metallica não era mais a banda de garage do Kill 'Em All. Ride the Lightning tinha chamado atenção da Elektra Records, que assinou um contrato de oito álbuns. A Q Prime entrou no management. O grupo já tocava para 70 mil pessoas em Castle Donington — no mesmo palco de Bon Jovi e Ratt, duas bandas que representavam tudo que o Metallica não queria ser.
A gravação foi para Copenhague: Sweet Silence Studios, com Flemming Rasmussen, de setembro a dezembro de 1985. A mixagem final ficou com Michael Wagener, depois que as mixtapes com Rasmussen não foram concluídas como planejado. O disco saiu em 3 de março de 1986. E seria o último com Cliff Burton — morto em setembro daquele ano num acidente de ônibus durante a turnê na Suécia, seis meses depois do lançamento.
Um timbre que recusou o brilho da época
A decisão sonora central é a recusa ao polimento. Enquanto glam metal e hard rock apostavam em sintetizadores, o Metallica foi na direção oposta. Hetfield tocou uma Jackson King V através de um Mesa Boogie Mark IIC+ modificado. Timbre seco, agressivo, ataque imediato — sem reverberação decorativa, sem espaço para respirar entre o riff e o ouvinte.
Cliff Burton operava a Aria Pro II SB1000 como instrumento melódico. Não como reforço rítmico. Lars Ulrich usou uma caixa Ludwig Black Beauty emprestada de Rick Allen, do Def Leppard — e a percussão ficou mais presente e definida do que nos dois álbuns anteriores.
Os vocais de Hetfield chegaram num ponto de maturidade aqui: os gritos ásperos de Kill 'Em All foram embora, e o que ficou é um estilo mais profundo, capaz de ser agressivo ou melódico conforme a música pede. As letras tratam de controle e manipulação — poderes sem nome que movem seres humanos como marionetes. Essa coerência temática dá ao disco uma unidade que vai além da ordem das faixas.
As faixas que definem o disco
Battery abre com violões acústicos sobrepostos em camadas, construindo tensão por quase um minuto antes de a parede de guitarras elétricas entrar. O riff usa díades menores distorcidas onde acordes de quinta seriam esperados — uma escolha não óbvia que dá à faixa uma agressividade específica. Hetfield improvisou esse riff enquanto estava em Londres, relaxando. Faz diferença saber isso: não tem a cara de algo calculado.
Master of Puppets são oito minutos com seções em compassos ímpares, uma passagem limpa e melódica no meio com solo de Hetfield, e um solo mais virtuoso de Hammett antes do retorno ao riff principal. O tema é o vício em cocaína. Em 6:19, Burton e Hammett inserem uma citação do riff de 'Andy Warhol', de David Bowie — uma homenagem que quase ninguém captura na primeira escuta. A faixa termina com risadas sinistras em fade-out.
The Thing That Should Not Be é a mais pesada do disco. Inspirada no Cthulhu Mythos de H.P. Lovecraft, as guitarras afinadas para baixo criam um groove lento que deve muito ao Black Sabbath. Num álbum cheio de riffs rápidos, essa faixa afunda de propósito — e funciona como contraste real.
Welcome Home (Sanitarium) segue a estrutura que o Metallica definiu com 'Fade to Black': guitarras limpas nos versos, riffs pesados nos refrões, escalada para um final mais agressivo do que o início prometia. A letra, baseada em One Flew Over the Cuckoo's Nest, de Ken Kesey, descreve um paciente preso numa instituição psiquiátrica. Funciona como rock e como narrativa — o que é raro.
Orion é o instrumental e onde Burton aparece de forma mais completa. Ele arranjou a seção do meio, que combina sua linha de baixo com harmonias de guitarra em múltiplas partes. O baixo abre a faixa com um fade-in fortemente processado, quase orquestral. Ouvir 'Orion' sabendo o que aconteceu com Burton meses depois muda a escuta. Inevitavelmente.
O que o tempo não corroeu
As composições. Cada faixa tem uma arquitetura interna com seções que evoluem e têm razão de existir. Num gênero que frequentemente descamba para riffs repetidos até o fade-out, isso é mais raro do que parece.
A recusa ao brilho excessivo da época também envelheceu melhor do que o esperado. O disco soa denso sem a compressão agressiva que tornaria muitos álbuns dos anos 90 cansativos em volume alto. A dinâmica entre limpeza acústica e peso elétrico ainda funciona como contraponto real.
O que pode dividir opiniões
A mixagem de Michael Wagener carrega marcas claras do período. O bumbo de Ulrich soa mais seco e clicado do que ouvidos formados pelo Black Album vão esperar. Para quem cresceu com a produção de Bob Rock, é um ajuste de escuta que não acontece rápido.
O disco também é front-heavy. As quatro primeiras faixas entregam mais do que as quatro do lado B. 'Leper Messiah' é competente, mas ao lado de 'Battery', 'Master of Puppets' e 'Sanitarium', qualquer coisa vai parecer menor. E 'Damage, Inc.' tem uma introdução de baixo baseada em Bach que contrasta de forma abrupta com o riff que vem na sequência.
Análise RockFuel
Em 2015, Master of Puppets se tornou a primeira gravação de metal selecionada pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos para o National Recording Registry — por ser culturalmente, historicamente ou esteticamente significativa. O metal raramente recebe esse tipo de reconhecimento em instâncias assim, e aqui o mérito é real.
Aqui no RockFuel, o disco se sustenta como o momento em que o Metallica demonstrou que thrash metal podia ter ambição compositiva sem abrir mão do peso. O treinamento clássico de Cliff Burton no arranjo, a recusa às produções da moda e a coerência temática das letras constroem um disco que é coeso do início ao fim — o que não é pouca coisa para um álbum de 54 minutos gravado em quatro meses.
Para quem quer entender de onde veio boa parte do metal dos anos 90 em diante, a escuta é obrigatória.
Veredito
Veredito RockFuel: 9,5/10 — o disco não precisa de contexto histórico para funcionar. Precisa de volume. Quatro décadas depois, a construção ainda sustenta o peso.