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Fear of the Dark: o disco em que o Iron Maiden fez sua maior música no pior momento da banda

Por Redação RockFuel ·

Com Bruce Dickinson de saída e o rock mudando ao redor, o Iron Maiden gravou o disco mais irregular da era clássica — e a faixa que nunca saiu do setlist.

Fear of the Dark: o disco em que o Iron Maiden fez sua maior música no pior momento da banda

Em agosto de 1993, numa gravação para a MTV no estúdio Pinewood, perto de Londres, o mascote Eddie foi filmado colocando a cabeça decapitada de Bruce Dickinson numa lança de metal. A cena era parte de um show de magia com o ilusionista Simon Drake — mas o simbolismo não precisava de explicação. Era a última apresentação de Dickinson na banda, ao final da turnê de Fear of the Dark. A era acabava com sua própria cabeça na ponta de um palito.

Fear of the Dark, lançado em maio de 1992, carrega esse peso em cada sulco: é um disco que o Iron Maiden fez num momento de tensão interna real, num estúdio improvisado, com o vocalista cada vez mais convicto de que a banda estava seguindo na direção errada. E, ainda assim, também carrega uma das músicas mais tocadas da história do grupo — a faixa-título que nenhuma turnê desde então conseguiu deixar de fora.

O que estava acontecendo com o Iron Maiden em 1992

O contexto é importante e muita gente não sabe. Em setembro e outubro de 1991, o Black Album do Metallica, Nevermind do Nirvana e Badmotorfinger do Soundgarden saíram num intervalo de dois meses. O rock estava mudando de cara de forma abrupta. Dickinson sentiu o impacto direto. Em 1992, ele disse ao Metal Hammer: "Comecei a pensar: melhor ter uma conversa séria com a galera, descobrir até onde eles estão preparados para arriscar a reputação da banda para tentar algo artisticamente novo."

Getting Iron Maiden to change, nas palavras do Louder Sound, era como tentar dar uma freada de mão em um petroleiro. Steve Harris queria voltar ao básico. Janick Gers tinha chegado para substituir Adrian Smith, que saiu antes do início das gravações depois de anos de insatisfação crescente — e a decisão de gravar no celeiro de Harris foi, segundo Dickinson, "a gota d'água" para Smith. A banda entrou no Barnyard Studios, em Essex, com essa bagagem toda em cima.

Como o álbum foi montado

Depois de No Prayer for the Dying (1990), gravado literalmente num celeiro com o estúdio móvel dos Rolling Stones e com resultados que o próprio Dickinson chamou de "abaixo da média", Harris converteu a construção num estúdio de verdade, batizado de Barnyard Studios. O resultado melhorou, mas Dickinson não escondeu as limitações: "Uma pequena melhora porque Martin [Birch] veio supervisionar o som. Mas havia grandes limitações — simplesmente pelo tamanho físico do espaço."

Era também o fim de uma era de produção: Martin Birch, que havia trabalhado com a banda desde Killers (1981), se aposentou após este álbum. Steve Harris assumiria o controle sozinho dali em diante — exatamente o que Dickinson não queria. O disco foi gravado com a formação de cinco integrantes: Dickinson nos vocais, Gers e Dave Murray nas guitarras, Harris no baixo e Nicko McBrain na bateria, com Michael Kenney nos teclados como músico adicional.

Faixa por faixa

1. Be Quick or Be Dead

Abertura direta e mais veloz que qualquer coisa do álbum anterior. Escrita por Dickinson e Gers — a primeira colaboração dos dois para o Maiden —, a música trata de escândalos políticos e financeiros europeus do início dos anos 90: a fraude de Robert Maxwell, o colapso do banco BCCI, a especulação no mercado financeiro. Chegou ao nº 2 nas paradas britânicas como single. Mostra um Maiden capaz de fazer thrash quando quer.

2. From Here to Eternity

O quarto e último capítulo da série Charlotte, que começou na estreia da banda em 1980 com "Charlotte the Harlot". Um rock mid-tempo com refrão grudento e roçada de cowbell. É a pausa entre a urgência da abertura e o peso que vem depois. Foi o primeiro single do Maiden em que Eddie não aparece na arte da capa.

3. Afraid to Shoot Strangers

Uma das faixas mais sombrias e substanciais do álbum. Escrita por Harris, conta a história a partir do ponto de vista de um soldado na Guerra do Golfo — um sujeito mandado matar gente que talvez não mereça morrer, esperando por uma ordem que ele não escolheu. Dickinson a apresentava nos shows como narrativa antiguerra. O riff é lento e opressivo, a construção lembra o Harris dos melhores momentos dos anos 80. Das poucas músicas do disco que frequentaram os setlists por décadas.

4. Fear Is the Key

Escrita na época em que a banda soube da morte de Freddie Mercury, em novembro de 1991. A letra aborda o medo nas relações sexuais por causa da AIDS — e inclui a linha "nobody cares 'til somebody famous dies", que Dickinson descreveu em entrevista de 1992 como reflexo de algo "muito triste": a epidemia só virou pauta ampla quando celebridades começaram a morrer. Tem motivos orientais no riff que evocam o Rainbow da era Dio.

5. Childhood's End

Título que remete ao romance de Arthur C. Clarke, embora a letra tenha leitura mais aberta. Faixa de Harris com estrutura clássica do Maiden — intro instrumental, corpo pesado, aceleração no refrão. Não é das mais comentadas do disco, mas tem um riff que segura.

6. Wasting Love

A primeira balada de poder da história do Iron Maiden. Escrita por Dickinson e Gers durante o trabalho no álbum solo de Dickinson, Tattooed Millionaire (1990). Tem guitarra acústica, melodia lenta e um Dickinson cantando com mais vulnerabilidade do que o usual. Não é o que o público esperava de uma abertura de lado B de disco do Maiden — e por isso funciona. Mostra que a banda conseguia sair da armadura quando precisava.

7. The Fugitive

Faixa de Harris inspirada na série de TV americana de mesmo nome. Estrutura mais tradicional do metal britânico, com aquele andamento médio que o Steve Harris domina como ninguém. Não vira hit nem clássico, mas preenche o disco com competência.

8. Chains of Misery

Mais uma colaboração de Dickinson e Gers, com groove de rock clássico e levada quase funk no baixo de Harris. Das mais leves do álbum em atmosfera — e também uma das menos comentadas. Tem o mérito de mostrar variação numa coleção que poderia ter ficado mais monótona.

9. The Apparition

Uma das faixas mais estranhas da discografia do Maiden. Rock mid-tempo de Murray e Harris que nunca decola de verdade — nem pelo peso, nem pela melodia, nem pela letra. É o ponto mais fraco do encarte e talvez o único momento em que o disco perde foco de verdade.

10. Judas Be My Guide

Colaboração de Dickinson e Murray. Volta ao território mais épico, com Dickinson entregando uma das melhores performances vocais do disco. A combinação de riff pesado com refrão melódico é clássica do Maiden — e funciona melhor aqui do que em algumas das faixas mais longas.

11. Weekend Warrior

Sobre a violência dos hooligans no futebol inglês. Harris e Gers assinam juntos. É direta, barulhenta e com pouca sutileza — tanto no tema quanto na música. Vale como descarga de adrenalina antes do fechamento, e não vai muito mais longe.

12. Fear of the Dark

E então vem a faixa-título. Seis minutos e quarenta e dois segundos de uma das músicas mais reconhecíveis do rock britânico. Intro de guitarra acústica, crescimento gradual, transição para o riff elétrico, refrão que inteiros estádios cantam sem precisar que ninguém ensine. Segundo relatos, Harris escreveu a música sobre si mesmo — ele tem escotofobia real, medo real do escuro.

A música foi indicada ao Grammy em 1994, perdeu para Ozzy Osbourne, mas venceu algo maior: está presente em absolutamente todos os álbuns ao vivo do Maiden desde que foi lançada. É a única música da era Dickinson I tocada nas turnês que remontaram apenas o repertório dos anos 80. Quando os primeiros acordes começam, a reação do público em qualquer lugar do mundo é a mesma.

O que envelheceu bem

"Fear of the Dark" e "Afraid to Shoot Strangers" envelheceram não apenas bem, mas melhor do que muita coisa considerada mais importante na época. "Be Quick or Be Dead" ainda tem a energia de abertura que qualquer banda gostaria de ter. "Wasting Love" é a balada que o Maiden não deveria ser capaz de fazer, mas fez — e funciona trinta anos depois.

A produção do Barnyard Studios, frequentemente criticada por suas limitações físicas, tem uma textura crua que dá ao disco uma sensação de urgência. Comparado ao som polido da segunda fase da banda, com Kevin Shirley, é menos brilhante — mas também menos distante.

O que pode dividir opiniões

O disco tem extensão excessiva para o que entrega. Com 58 minutos divididos em 12 faixas — o primeiro álbum duplo em vinil da carreira — há pelo menos três músicas ("The Apparition", "The Fugitive", "Weekend Warrior") que não fariam falta se tivessem ficado de fora. O contraste entre a faixa-título e o material mais fraco do tracklist é grande o suficiente para incomodar.

A tensão interna da banda também transparece no resultado desigual. Dickinson estava cada vez mais convicto de que o Maiden precisava mudar; Harris, igualmente convicto de que não. O disco carrega essa divisão: metade ambiciosa, metade segura demais.

Análise RockFuel

Fear of the Dark é um disco de transição que não quis admitir que era de transição. O Iron Maiden de 1992 estava num momento delicado: o rock mudava ao redor deles, o vocalista questionava o rumo, o produtor histórico se aposentava, e a formação clássica tinha acabado de perder um guitarrista. Gravar num estúdio caseiro com todas essas variáveis era uma aposta.

O resultado é um disco com picos reais e vales reais. Os picos são altos o suficiente para justificar qualquer lista de essenciais do Maiden: "Fear of the Dark", "Afraid to Shoot Strangers", "Be Quick or Be Dead". Os vales são honestos o suficiente para explicar por que o disco nunca entrou no cânone dos maiores da banda sem debate. O disco que veio depois — o retorno de Dickinson em Brave New World (2000) — soou como resposta direta ao que estava faltando aqui.

Mas existe algo poderoso no fato de que o Iron Maiden fez a maior música da própria carreira ao vivo exatamente no momento em que estava mais rachado internamente. "Fear of the Dark" a faixa sobreviveu à saída de Dickinson, ao período Blaze Bayley, ao retorno, a décadas de turnê. Isso diz algo sobre o que Harris acertou ao escrever a música — e algo sobre o que Dickinson acertou ao cantar.

Veredito RockFuel

Nota RockFuel: 7,0/10. Fear of the Dark não é o melhor disco do Iron Maiden — e não chega perto. Mas tem a melhor música da carreira ao vivo da banda, e alguns dos melhores momentos do Maiden fora da era dourada dos anos 80. É essencial para quem quer entender a banda completa: não pela perfeição, mas por mostrar o que acontece quando um grupo de verdade enfrenta pressão, incerteza e ainda entrega algo que vai durar décadas.

Fontes e referências

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