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Garage Inc.: o álbum do Metallica que muita gente não sabe que é todo de covers

Por Redação RockFuel · · Nota RockFuel: 8,0/10

De Bob Seger a Misfits, de Black Sabbath a Diamond Head, o Metallica transformou músicas de outros artistas em uma viagem pesada pelas próprias influências.

Garage Inc.: o álbum do Metallica que muita gente não sabe que é todo de covers

Garage Inc., lançado pelo Metallica em novembro de 1998, é um daqueles discos que muita gente ouviu por causa de "Turn the Page" ou "Whiskey in the Jar", mas nem todo mundo percebeu o detalhe mais importante: o álbum inteiro é feito de covers.

E isso muda completamente a forma de ouvir o projeto. Garage Inc. não é um disco comum na discografia do Metallica. Ele é uma espécie de mapa das influências da banda, passando por punk, hardcore, NWOBHM, hard rock, rock sulista, horror punk, Black Sabbath, Motörhead e outras referências que ajudaram a formar o DNA do grupo.

Contexto: o disco que veio depois do cansaço

Para entender Garage Inc., vale lembrar o que tinha acontecido antes. Entre 1991 e 1997, o Metallica entregou três álbuns de inéditas em sequência: o Black Album, Load e Reload. Todos foram sucessos comerciais enormes, mas também acumularam discussão sobre direção musical, mudança de estética e distância do thrash que tinha feito o nome da banda.

Lars Ulrich resumiu o motivo do projeto em entrevista à Billboard em 1998: "Nós ainda precisamos nos divertir. Fizemos três discos sérios em sequência. Era hora de fazer algo diferente." Garage Inc. é a resposta — sem peso de inéditas, sem cobrança de single de rádio, só a banda voltando para o que fazia antes de virar gigante: tocar música de outros artistas porque amavam aquela música.

O conceito do álbum

O nome é uma piada com o próprio repertório: junta "Garage Days Revisited" (a série de covers que a banda gravava desde os anos 80) e "Damage, Inc." (faixa de Master of Puppets). A arte do encarte foi assinada por Andy Airfix com fotos de Anton Corbijn, e ecoa o visual do EP de 1987.

O projeto se divide em dois discos com lógicas diferentes. O Disco 1 reúne 11 covers gravados especialmente para o lançamento, entre setembro e outubro de 1998, no The Plant Studios em Sausalito. O Disco 2 resgata 16 faixas mais antigas: o EP Garage Days Re-Revisited de 1987 (que estava fora de catálogo havia anos), B-sides de singles e gravações ao vivo dos anos 80 e 90. Junto, o pacote tem 136 minutos e 27 músicas.

Comercialmente, deu certo: pico no nº 2 da Billboard 200, 5x platina nos EUA, mais de 5 milhões vendidos no mundo. Em 2000, "Whiskey in the Jar" levou o Grammy de Melhor Performance de Hard Rock. Para um álbum de covers, número de gigante.

Faixa por faixa — Disco 1 (1998)

1. Free Speech for the Dumb — Discharge

Abertura seca, rápida, barulhenta. O Discharge é a banda britânica de hardcore punk que ajudou a inventar o som "d-beat", e o Metallica abre o disco quase como declaração: antes do thrash, eles eram fãs disso. Quem só conhece o Metallica pós-Black Album leva um susto nos primeiros segundos. Ouça a versão original no YouTube

Discharge — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

2. It's Electric — Diamond Head

Diamond Head é, sem nenhum exagero, a banda mais importante para o Metallica fora do próprio Metallica. James Hetfield e Lars Ulrich descobriram a NWOBHM em parte ouvindo essa banda britânica, e Lars chegou a viajar para a Inglaterra ainda adolescente para acompanhar shows do grupo. "It's Electric" é hard rock direto, com riff sujo, e mostra de onde veio metade da assinatura sonora do Metallica dos anos 80. Ouça a versão original no YouTube

Diamond Head — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

3. Sabbra Cadabra — Black Sabbath

Reverência ao Sabbath, que para o Metallica é território sagrado. A faixa original aparece em Sabbath Bloody Sabbath (1973) e tem aquele peso setentista, meio bluesy, que o Metallica reproduz com fidelidade respeitosa — sem querer modernizar, sem trair o original. No fim, a banda emenda um trecho de "A National Acrobat" como bônus, que é a forma deles dizerem que ouviram o disco inteiro. Ouça a versão original no YouTube

Sabbra Cadabra — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

4. Turn the Page — Bob Seger

O hit comercial do disco. A canção original do Bob Seger é de 1973, um clássico de rock sulista sobre solidão de estrada, tédio de turnê e cansaço. James Hetfield canta como quem viveu o assunto. A versão do Metallica entra mais pesada que o original, mas mantém o tom amargo.

O videoclipe, dirigido por Jonas Åkerlund, com a atriz Ginger Lynn Allen, virou um marco da MTV de 1998. Foi nº 1 no Mainstream Rock e é provavelmente a porta de entrada de muita gente no álbum. Ouça a versão original no YouTube

Bob Seger — Turn the Page — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

5. Die, Die My Darling — Misfits

Horror punk em estado puro. A original é dos Misfits, banda do New Jersey de Glenn Danzig, e a faixa apareceu em 1984 em um single póstumo da formação clássica. O Metallica transforma a música em pancada de arena, mantém o grude do refrão e adiciona peso. Para quem nunca tinha ouvido Misfits, esse cover funcionou como ponte direta — muita gente chegou no Danzig original por causa do Garage Inc. Ouça a versão original no YouTube

Misfits — Die, Die My Darling — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

6. Loverman — Nick Cave and the Bad Seeds

Aqui é a escolha mais inesperada do disco. Nick Cave não é referência óbvia para banda de thrash. A original, de 1994, no álbum Let Love In, é teatral, lenta, sombria, com sussurros e explosões controladas. O Metallica mantém a intenção, deixa a guitarra crescer aos poucos, e Hetfield interpreta o personagem com peso que o original já tinha de outra forma. Não é faixa para todo mundo, mas mostra que a banda estava ouvindo coisa de fora do circuito metal. Ouça a versão original no YouTube

Nick Cave — Loverman — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

7. Mercyful Fate — medley do Mercyful Fate

Quase 11 minutos de tributo direto ao Mercyful Fate, a banda dinamarquesa de King Diamond que foi fundamental na formação do gosto metálico do Metallica. O medley costura cinco faixas do início da carreira do grupo: "Satan's Fall", "Curse of the Pharaohs", "A Corpse Without Soul", "Into the Coven" e "Evil". Importante: essa "Evil" é a do Mercyful Fate, não "Am I Evil?" do Diamond Head — são músicas diferentes de bandas diferentes.

Hetfield canta sem tentar imitar King Diamond, e o medley é aula condensada de metal sombrio dos anos 80. Links das originais: Satan's Fall · Curse of the Pharaohs · A Corpse Without Soul · Into the Coven · Evil

Mercyful Fate — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

8. Astronomy — Blue Öyster Cult

Uma das faixas mais atmosféricas do álbum. A original do Blue Öyster Cult está no disco Secret Treaties (1974) e tem aquela vibe meio progressiva, com construção lenta e refrão grandioso. O Metallica respeita o tom, vai construindo o peso aos poucos, e entrega uma versão que funciona melhor com o álbum em silêncio do que como faixa solta de carro. É das mais ambiciosas e das menos óbvias. Ouça a versão original no YouTube

Blue Öyster Cult — Astronomy — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

9. Whiskey in the Jar — tradicional / Thin Lizzy

A música é uma canção folk irlandesa do século 18, mas a versão que o mundo conhece é a do Thin Lizzy de 1972 — Phil Lynott pegou a melodia tradicional e transformou em hit rock. O Metallica vai pela versão do Thin Lizzy, dá mais peso de guitarra e mantém o refrão grudento que faz qualquer bar cantar junto.

Ganhou Grammy de Melhor Performance de Hard Rock em 2000. Para muita gente que entrou no Metallica nos anos 90, essa foi a porta de entrada no Thin Lizzy. Ouça a versão original no YouTube

Whiskey in the Jar — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

10. Tuesday's Gone — Lynyrd Skynyrd

Faixa mais inesperada do Disco 1. Rock sulista do Lynyrd Skynyrd, lançada originalmente em 1973. O Metallica gravou essa em dezembro de 1997 em uma transmissão de rádio da KSJO, e o resultado é praticamente um jam.

Aparecem Les Claypool do Primus no baixo, Jerry Cantrell do Alice in Chains na guitarra, Pepper Keenan do Corrosion of Conformity, Sean Kinney na bateria, Jim Martin do Faith No More e Gary Rossington (guitarrista original do Skynyrd). É o Metallica mais relaxado que aparece no disco — quase um após-hora de estúdio. Ouça a versão original no YouTube

Tuesday's Gone — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

11. The More I See — Discharge

Fechamento do Disco 1 com mais Discharge. Curta, agressiva, hardcore puro — fecha simétrica com a abertura, deixa claro que o Disco 1 começou e terminou ouvindo punk britânico. Recado para quem ainda tinha dúvida sobre onde o Metallica buscava combustível. Ouça a versão original no YouTube

Discharge — The More I See — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

Faixa por faixa — Disco 2 (1984-1995)

O Disco 2 é uma cápsula do tempo. Pega o EP The $5.98 EP: Garage Days Re-Revisited de 1987 inteiro, mais B-sides e gravações ao vivo da era Cliff Burton e início da era Jason Newsted. Por isso o som muda: produção mais crua, baixo mais alto, performance de banda jovem.

1. Helpless — Diamond Head

Volta ao Diamond Head, agora com gravação de 1987 do EP Garage Days. A produção é mais seca que o Disco 1, mais perto do Metallica de Master of Puppets. "Helpless" virou faixa de show frequente nos anos 80, e mostra o quanto Lars e Hetfield queriam que o mundo conhecesse essa banda britânica. Ouça a versão original no YouTube

Diamond Head — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

2. The Small Hours — Holocaust

Outro nome da NWOBHM, o Holocaust não chegou ao público amplo, mas era ouvido pelos fãs da cena. A versão do Metallica de 1987 é arrastada, sombria, com aquele riff que parece se demorar de propósito. Vale como faixa de descoberta — quem ouviu via Metallica geralmente terminou pesquisando o original. Ouça a versão original no YouTube

Holocaust — The Small Hours — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

3. The Wait — Killing Joke

Killing Joke é banda inglesa de post-punk com pegada quase industrial. A original tem tensão, repetição, clima opressivo — tudo que o thrash absorveu sem creditar muito. A versão do Metallica de 1987 mantém o desconforto e ainda adiciona peso de guitarra. É uma das gravações que mostra como o Metallica ouvia coisa fora do hard rock óbvio. Ouça a versão original no YouTube

Killing Joke — The Wait — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

4. Crash Course in Brain Surgery — Budgie

Budgie é a banda galesa que muita gente conhece graças justamente ao Metallica. O original é de 1971, com aquele peso meio doom, meio hard rock, riff estranho e progressões inesperadas. A versão do Metallica de 1987 traduz isso para som de garagem, e vira introdução perfeita: depois de ouvir o cover, ninguém volta sem dar play no Budgie original. Ouça a versão original no YouTube

Budgie — Crash Course — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

5. Last Caress / Green Hell — Misfits

Medley dos Misfits, também de 1987. "Last Caress" é provocativa de propósito, "Green Hell" é horror punk rápido. Juntas, são pouco mais de três minutos que mostram o Metallica entendendo perfeitamente o espírito do punk americano: simples, direto, sem pedido de desculpa. Versões que viraram referência para qualquer banda que cobrir Misfits depois. Last Caress (YouTube) · Green Hell (YouTube)

Misfits — Last Caress / Green Hell — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

6. Am I Evil? — Diamond Head

A faixa mais icônica do Disco 2 e provavelmente a cover do Metallica que mais gente conhece. A original é do Diamond Head, do álbum Lightning to the Nations (1980), e o Metallica vinha tocando ao vivo praticamente desde o começo da carreira.

A gravação aqui é de 1987 e é tão definitiva que muita gente atribui a música ao próprio Metallica — o que diz tudo sobre como a banda absorveu a NWOBHM. Detalhe: essa "Am I Evil?" é diferente da "Evil" do Mercyful Fate que aparece no medley do Disco 1. Ouça a versão original no YouTube

Diamond Head — Am I Evil? — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

7. Blitzkrieg — Blitzkrieg

NWOBHM clássica. O Blitzkrieg foi uma banda menor da cena britânica do início dos anos 80, e a faixa-título da banda virou material de show do Metallica. Versão de 1987, energia direta, sem invenção — só o Metallica honrando uma banda que pouca gente fora dos fanzines conhecia. Ouça a versão original no YouTube

Blitzkrieg — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

8. Breadfan — Budgie

Mais Budgie, agora com gravação ao vivo de 1988. Riff icônico, baixo na cara, vocal rasgado de Hetfield. É uma das versões em que dá para sentir o quanto a banda se diverte tocando esse material — não é cover de obrigação, é fã matando vontade. Ouça a versão original no YouTube

Imagem editorial de referência — Budgie

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

9. Stone Cold Crazy — Queen

O lado proto-thrash do Queen, de Sheer Heart Attack (1974). A original é uma das músicas mais rápidas e agressivas que o Queen gravou, e muitos consideram um dos primeiros embriões de speed metal vindos do rock dos anos 70. Hetfield gravou essa com Tony Iommi (Black Sabbath) no Freddie Mercury Tribute em 1992, no Wembley Stadium, e a versão do Metallica leva tudo de proto-thrash da original ao máximo. Ouça a versão original no YouTube

Queen — Stone Cold Crazy — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

10. So What — Anti-Nowhere League

Punk britânico provocativo no sentido literal: a letra do Anti-Nowhere League era escrita para incomodar, e em 1981 o single foi censurado no Reino Unido. O Metallica gravou em 1991 e manteve toda a sujeira, todo o palavrão, toda a intenção. Não é faixa para tocar com fone aberto perto dos pais. Ouça a versão original no YouTube

Anti-Nowhere League — So What — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

11. Killing Time — Sweet Savage

Sweet Savage é banda da Irlanda do Norte, NWOBHM, que serviu de berço para Vivian Campbell antes dele entrar no Dio e no Def Leppard. A faixa é obscura no melhor sentido — gente que só conhece o Metallica chega aqui sem saber, e descobre uma banda inteira. Versão de 1990. Ouça a versão original no YouTube

Sweet Savage — Killing Time — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

12-15. Overkill / Damage Case / Stone Dead Forever / Too Late Too Late — Motörhead

O Disco 2 fecha com quatro músicas seguidas do Motörhead, gravadas em 1995 para uma edição limitada do single "Hero of the Day" sob o nome Motörheadache. É a forma do Metallica fazer reverência total a Lemmy: meia hora de música corrida, suja, com baixo distorcido.

A escolha das quatro mostra o Motörhead em diferentes momentos: "Overkill" é a velocidade pura, "Damage Case" é o lado rock'n'roll de Lemmy, "Stone Dead Forever" é o riff e o baixo na cara, "Too Late Too Late" fecha sem alívio.

Não é coincidência que o álbum termine assim. O Motörhead é a banda que mostrou para o Metallica que dava para fazer rock pesado sem precisar separar punk, metal e rock clássico em caixinhas diferentes. Fechar Garage Inc. com 30 minutos de Lemmy é a tese inteira do disco em formato de música: tudo vem do mesmo lugar.

Overkill (YouTube) · Damage Case (YouTube) · Stone Dead Forever (YouTube) · Too Late Too Late (YouTube)

Motörhead — quatro covers do Disco 2 — capa de referência editorial RockFuel

Crédito da imagem: captura/arte editorial RockFuel via Cloudinary. Referência musical: YouTube.

Análise RockFuel

Garage Inc. funciona porque não tenta esconder as referências do Metallica. Pelo contrário: o disco escancara a estante de influências da banda. Tem punk britânico (Discharge, Anti-Nowhere League), NWOBHM (Diamond Head, Holocaust, Blitzkrieg, Sweet Savage), hard rock setentista (Black Sabbath, Queen, Budgie, Blue Öyster Cult), horror punk (Misfits), rock sulista (Bob Seger, Lynyrd Skynyrd), folk irlandês via Thin Lizzy, post-punk (Killing Joke), metal teatral (Mercyful Fate), art rock sombrio (Nick Cave) e Motörhead em dose dupla. Tudo isso em 27 faixas.

É um álbum irregular? Sim. E talvez precise ser. O repertório muda demais de clima, época e intenção — fechar com 30 minutos de Motörhead depois de abrir com Discharge não é coincidência, é convicção. Mas essa irregularidade é parte do charme. Garage Inc. não quer soar como obra fechada e conceitual. Ele soa como uma banda abrindo a garagem, pegando discos antigos e mostrando ao público de onde vieram muitos dos riffs, atitudes e obsessões que formaram sua identidade.

Para quem entrou no Metallica por "Enter Sandman", "Nothing Else Matters" ou "Master of Puppets", esse álbum pode funcionar como aula paralela. Não é o melhor disco da banda — está longe disso. Mas talvez seja um dos melhores mapas para entender suas raízes. E é dos poucos momentos da discografia em que dá para ouvir o Metallica como fã antes de como banda.

Veredito RockFuel

Nota: 8/10. Garage Inc. não é indispensável por ser perfeito. Ele é importante porque mostra o Metallica como fã, não apenas como gigante. Disco de reverência, sujeira, memória e influência — e prova de que, em 1998, depois de três álbuns sérios em sequência, a banda ainda lembrava de onde veio. Quem nunca ouviu o álbum inteiro está perdendo um pedaço importante da história do Metallica.

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