Big Four do Thrash Metal: por onde começar nas quatro bandas que definiram o gênero
Por Redação RockFuel ·
Quatro bandas, oito discos, uma ordem que faz sentido. Como entrar no Big Four do thrash metal sem desistir no primeiro impacto.
Introdução
Entrar no Big Four não é a mesma coisa que entrar no rock. As quatro bandas — Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax — definiram o thrash metal entre 1983 e 1990, mas cada uma resolveu o problema de fazer música rápida e pesada de um jeito completamente diferente. Quem dá play em Reign in Blood antes de saber onde está entrando geralmente desiste no segundo minuto.
Esse guia é para quem nunca ouviu o Big Four de verdade, ou ouviu só o óbvio e quer mapear o resto. A ordem aqui foi pensada para construir o ouvido: começa pelo que abre porta, passa pelo que diverte, entra no que exige paciência técnica e só depois vai para a brutalidade pura.
Como usar esse guia
São oito discos divididos em duas fases. Os quatro primeiros são os pontos de entrada, um por banda. Os quatro seguintes são o segundo passo, quando você já entendeu o que cada banda faz e quer aprofundar.
Ouça na ordem proposta. Não é sobre qualidade, é sobre digestão. Se você começar pelo Slayer mais selvagem, a chance de dar play uma vez e nunca mais voltar é alta. Começando pelo Metallica, o ouvido entra preparado para o que vem depois.
Os essenciais
1. Metallica — Master of Puppets (1986)
O ponto de entrada óbvio, mas óbvio porque é certo. Master of Puppets pega tudo o que o thrash tinha de melhor — riffs longos, estruturas complexas, peso real — e organiza isso em oito faixas que funcionam como hinos. Battery, a faixa-título e Welcome Home (Sanitarium) são três aulas diferentes de como construir uma música pesada que ainda tem melodia. Você sai ouvindo sem trauma e querendo mais. Se for só duas faixas, vai de Master of Puppets e Battery.
2. Anthrax — Among the Living (1987)
Depois do Metallica, o Anthrax é a transição mais natural. A banda traz energia de cidade: vocais melódicos do Joey Belladonna, riffs do Scott Ian com pegada quase hardcore, letras sobre Stephen King e quadrinhos. Caught in a Mosh e I Am the Law mostram que dá para fazer thrash sem virar para o lado sombrio. Quem acha o gênero sério demais costuma encontrar aqui o caminho. É o disco que mais ri sem perder o peso.
3. Megadeth — Rust in Peace (1990)
Aqui o jogo muda. Mustaine reuniu Marty Friedman na guitarra e Nick Menza na bateria, e fez um disco em que a técnica é o argumento principal. Holy Wars... The Punishment Due abre o álbum com uma das introduções mais ambiciosas do thrash. Hangar 18 e Tornado of Souls têm solos que entraram para o vocabulário do gênero. Mais cerebral que os anteriores, mais difícil de absorver na primeira ouvida, mas é onde o nível de execução do Big Four atinge o topo.
4. Slayer — Seasons in the Abyss (1990)
Reign in Blood é mais lendário, é verdade. Mas para começar no Slayer, Seasons in the Abyss funciona melhor: a banda equilibra velocidade absoluta com partes mais lentas e quase sombrias, sem perder a violência. War Ensemble, a faixa-título e Skeletons of Society dão uma fotografia mais completa do que o Slayer é capaz de fazer. Depois disso, você está pronto para o que vem.
Para onde ir depois
5. Slayer — Reign in Blood (1986)
Agora sim. Vinte e nove minutos, dez faixas, zero ar. Reign in Blood não é um disco que pede paciência: exige resistência. Angel of Death abre com um dos riffs mais reconhecíveis da história do metal, e Raining Blood fecha com o que talvez seja o momento mais ritualístico do gênero. Quando esse disco fizer sentido, você é fã do Slayer.
6. Megadeth — Peace Sells... But Who's Buying? (1986)
O Megadeth antes de Rust in Peace. Mais cru, com menos polimento técnico, mas com a personalidade da banda já inteira. A faixa-título tem um dos riffs de baixo mais imitados do thrash. Wake Up Dead mostra o Mustaine compositor que existia antes do Megadeth virar máquina técnica. É onde dá para ouvir Mustaine ainda processando a expulsão do Metallica, três anos depois.
7. Metallica — Ride the Lightning (1984)
Voltando ao Metallica, mas para trás. Ride the Lightning é o disco em que a banda descobre que pode escrever épicos: For Whom the Bell Tolls, Fade to Black, Creeping Death. Mais áspero que Master of Puppets, menos refinado, mas com uma ambição que muita gente prefere ao disco seguinte. Ouvir os dois em sequência é entender como o Metallica se construiu.
8. Anthrax — Spreading the Disease (1985)
O Anthrax antes do Among the Living, ainda em construção mas já com a fórmula no lugar. Madhouse e A.I.R. mostram a banda fechando o som depois das tentativas do disco de estreia. Vale pela história: aqui está o ponto exato em que o Anthrax sai do esboço e vira o Anthrax que todo mundo conhece.
Se você gostou de uma banda, ouça também
Cada uma das quatro abre um caminho diferente dentro do metal:
- Curtiu Metallica: Megadeth e Iron Maiden. Riffs construídos, músicas longas, peso melódico.
- Curtiu Megadeth: Testament e Death Angel. Técnica alta sem sacrificar pancada.
- Curtiu Slayer: o caminho leva a Sepultura (fase Arise e Beneath the Remains), Kreator e ao death metal antigo, tipo Death e Possessed.
- Curtiu Anthrax: Exodus e Overkill seguem a mesma energia. Para quem topar o crossover, Suicidal Tendencies e D.R.I. são o passo seguinte.
Análise RockFuel
O Big Four virou rotulação útil e redutora ao mesmo tempo. Útil porque ajuda quem nunca ouviu thrash a começar por algum lugar. Redutora porque deixou de fora o Exodus, que estava na cena desde o começo, e o Testament, que sustentou o gênero quando os quatro grandes desviaram. A história completa do thrash inclui essas duas bandas e outras: Kreator na Alemanha, Sepultura no Brasil, Voivod no Canadá. O Big Four é a porta de entrada, não o gênero inteiro.
Esses oito discos cobrem o momento em que o thrash deixou de ser cena underground e virou um dos pilares do metal moderno. Entre 1984 e 1990, o Metallica saiu de Ride the Lightning para o Black Album (1991), o Megadeth construiu sua identidade técnica, o Slayer chegou ao ponto mais extremo possível sem virar grindcore, e o Anthrax provou que dá para ser leve sem ser fraco. Depois disso, cada um seguiu seu caminho. Alguns mais felizes que outros.
Fechamento
Em 22 de junho de 2010, no Sonisphere Festival em Sofia (Bulgária), as quatro bandas dividiram o mesmo palco pela primeira vez em uma das poucas datas do Big Four reunido. Tocaram juntas Am I Evil?, do Diamond Head — banda do NWOBHM que tinha sido referência das quatro nos anos 80. O vídeo do encontro está em: https://youtu.be/__j5Z_WcVgE
Depois de ouvir os oito discos, dá para entender por que essa noite importou. Quatro bandas que passaram décadas brigando, se ignorando, se influenciando, terminam tocando juntas o disco que ouviam quando ainda não eram ninguém. Isso é o thrash em uma frase.