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Hail to the King: o disco em que o Avenged Sevenfold parou de fingir e assumiu os ídolos

Por Redação RockFuel ·

Metallica, Black Sabbath, Iron Maiden e AC/DC: o sexto disco do Avenged Sevenfold é uma homenagem deliberada aos ídolos — com tudo que isso tem de bom e de arriscado.

Hail to the King: o disco em que o Avenged Sevenfold parou de fingir e assumiu os ídolos

Hail to the King não pediu desculpa por nada. O sexto disco do Avenged Sevenfold, lançado em agosto de 2013, é a banda decidindo, de propósito, soar como os ídolos que ouviam quando criança: Metallica, Black Sabbath, Iron Maiden, AC/DC, Guns N' Roses. O título já avisa o que vem: um disco que se ajoelha diante do próprio cânone.

O que pouca gente percebe é o quanto essa escolha foi calculada. Não é nostalgia por acidente — é um plano de carreira com nome, data e justificativa pública dos próprios músicos.

O que estava acontecendo com o Avenged Sevenfold em 2013

Depois do disco anterior, Nightmare (2010), repleto de orquestração e ambição progressiva, a banda parou para pensar no próprio lugar no mundo. M. Shadows resumiu o raciocínio numa entrevista à Metal Hammer: a ideia era escrever "um disco clássico de metal, um disco clássico de rock em 2013", indo "de volta para o som do Sabbath" e ouvindo Led Zeppelin como referência direta.

O motivo apareceu em outra entrevista, mais cru: o Avenged Sevenfold tinha se tornado uma banda grande, mas sem nenhuma música que funcionasse num bar — nada que chegasse ao nível do Black Album do Metallica ou de um clássico do AC/DC. O material da banda era complexo demais, neoclássico demais. A resposta foi simplificar de propósito, expor as influências sem disfarce.

Como o álbum foi montado

O disco foi gravado nos estúdios Can-Am, em Los Angeles, e Capitol, em Hollywood, com produção de Mike Elizondo (que já tinha trabalhado em Nightmare). Foi também o primeiro álbum da banda com o baterista Arin Ilejay como membro oficial, e o primeiro sem qualquer contribuição musical do fundador Jimmy "The Rev" Sullivan, morto em 2009 — a faixa bônus "St. James" foi escrita em memória dele.

Zacky Vengeance descreveu o processo como uma volta às origens: a banda voltou ao núcleo do heavy metal em vez de tentar complicar as composições. M. Shadows foi mais específico sobre a disciplina envolvida: era fácil para eles encaixar uma melodia bonita aqui, uma harmonia ali — e tiveram que se conter para manter o disco mais direto, mais cru.

Até a capa passou por reformulação pública. A primeira versão divulgada foi recebida com críticas duras dos fãs, e a banda optou por uma capa alternativa: simplesmente o logo Deathbat preenchendo a frente e o verso, em preto e branco. A arte interna, batizada "Deadly Rule" e pintada por Cam Rackam, mostra uma figura caveira coroada — guardada para quem abrisse o encarte ou comprasse o vinil duplo.

Faixa por faixa

1. Shepherd of Fire

Abertura cinematográfica, quase seis minutos. Riff pesado, arranjo orquestral discreto ao fundo, refrão construído para ser gritado em estádio. É o cartão de visitas do disco: mostra peso, ambição e a intenção clara de impressionar logo de cara. Anos depois, viraria tema de um modo zumbi de Call of Duty — prova de como a faixa migrou para fora do nicho metal.

2. Hail to the King

A faixa-título e primeiro single. Riff simples, repetitivo, deliberadamente parecido com hard rock clássico dos anos 80. Foi a porta de entrada do disco e ainda é a música mais tocada da banda em streaming — segundo o próprio M. Shadows, mais que o dobro de qualquer outra faixa do catálogo. Funciona melhor ao vivo do que no fone: é uma música pensada para multidão cantando junto.

3. Doing Time

A faixa mais curta e mais estranha do encarte. Tem groove blueseiro, vocal duplo de M. Shadows e Synyster Gates, e uma letra sobre prisão que soa quase como pausa cômica no meio de um disco sério. Divide opinião: para alguns é respiro bem-vindo, para outros é a faixa mais descartável do álbum.

4. This Means War

A faixa mais polêmica do disco, e não por acaso. A semelhança com "Sad But True", do Metallica, foi apontada por críticos e fãs ao mesmo tempo — riff parecido, pausa dramática na intro que ecoa a estrutura do original quase nota por nota. Anos depois, M. Shadows reconheceria publicamente que o disco "cortou perto demais" de suas influências. A faixa é boa tecnicamente, mas carrega esse fantasma específico onde quer que toque.

5. Requiem

Uma das faixas mais ambiciosas, com arranjo orquestral completo: cordas, trompa, coral. Tem um interlúdio falado, quase teatral, que poderia facilmente soar piegas e por pouco escapa disso graças ao peso do resto da instrumentação. É o momento em que o disco se permite ser grandioso sem perder a deixa.

6. Crimson Day

A balada do disco, com cordas e clima introspectivo. Foge da fórmula pesada das faixas vizinhas e mostra um lado mais melódico que o Avenged Sevenfold já tinha explorado em discos anteriores. Não é a faixa que define o álbum, mas dá variação a um conjunto que, sem ela, ficaria monótono.

7. Heretic

Riff pesado, atmosfera mais sombria, sem grandes ambições além de soar ameaçador. É uma das faixas menos comentadas do disco — nem ruim nem essencial, apenas cumprindo o papel de manter o peso entre os momentos mais grandiosos.

8. Coming Home

Faixa de fechamento emocional, com solo de guitarra extra assinado por Brian Haner Sr. (pai de Synyster Gates) no final. Tem ambição de hino de encerramento de show, e funciona nesse papel: é construída para ser a última música antes das luzes se apagarem.

9. Planets

Uma das faixas mais ambiciosas do encarte, com participação vocal adicional de Synyster Gates e textura quase espacial — apesar do nome sugestivo, o resultado é mais terreno e pesado do que cósmico. Mistura groove pesado com momentos de respiro orquestral.

10. Acid Rain

Encerramento lento, construído com cordas e piano antes de explodir em peso na segunda metade. É o contraponto natural de "Shepherd of Fire": se a abertura é todo impacto imediato, o fechamento é paciência que se transforma em peso. Faixa subestimada do disco.

O que envelheceu bem

O título e a faixa "Hail to the King" continuam sendo provavelmente os elementos mais duráveis do disco: riff reconhecível, refrão de arena, presença constante em shows da banda até hoje. A produção de Mike Elizondo também segura bem o tempo — é polida sem ser estéril, pesada sem ser confusa.

A decisão de simplificar, vista de longe, também envelheceu melhor do que a crítica imediata sugeria. O disco abriu o Avenged Sevenfold para um público que talvez não tivesse paciência para a complexidade neoclássica de discos anteriores, e ajudou a banda a se firmar como nome de festival grande.

O que pode dividir opiniões

A proximidade com as influências é, ao mesmo tempo, o conceito do disco e seu maior risco. "This Means War" carrega até hoje a comparação direta com "Sad But True", e isso não é exagero de fã rival: foi documentado por veículos especializados, faixa a faixa, comparando trechos específicos de "Hail to the King" com canções de Metallica, Megadeth e Guns N' Roses.

Robb Flynn, do Machine Head, chamou o disco publicamente de "álbum de covers" — depois explicou que era brincadeira, mas a piada só funcionou porque tinha base real. O próprio M. Shadows, anos mais tarde, admitiu que a banda "cortou perto demais" das referências. Para quem valoriza originalidade acima de tudo, isso pesa contra o disco. Para quem entende o projeto como homenagem deliberada, é menos problema e mais assinatura.

Análise RockFuel

Hail to the King é um disco sobre saber exatamente o que se quer e pagar o preço por isso. O Avenged Sevenfold não tropeçou nas próprias influências: caminhou direto para elas, de olhos abertos, sabendo que a comparação viria. Em troca, ganhou o álbum mais consistente em riffs simples e diretos da carreira, e o primeiro número 1 simultâneo nos Estados Unidos e no Reino Unido.

O problema não é a inspiração — é a distância entre inspiração e cópia, e em pelo menos uma faixa ("This Means War") essa distância ficou desconfortavelmente curta. Mas julgar o disco inteiro por uma faixa seria injusto: o restante do álbum usa as mesmas referências de um jeito mais digerido, mais filtrado pela própria identidade da banda.

É um disco de transição inteligente: pegou uma banda que vinha de um álbum orquestral e ambicioso e a reposicionou como ato de festival grande, com riffs que funcionam em qualquer lugar do mundo. Não é o disco mais ousado do Avenged Sevenfold. É, possivelmente, o mais calculado — e o cálculo funcionou.

Veredito RockFuel

Nota RockFuel: 7,5/10. Hail to the King não esconde de onde veio, e isso é ao mesmo tempo sua maior virtude e seu ponto mais frágil. Como exercício de reverência a Metallica, Sabbath, Maiden e AC/DC, funciona quase sempre. Como disco que precisa segurar sozinho, tropeça especificamente onde a semelhança vira coincidência demais.

Vale a audição completa por quem gosta de heavy metal direto ao ponto — só não espere reinvenção. O disco nunca prometeu isso, e é justo dar crédito a uma banda que assumiu o que queria fazer.

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