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Por que o Ozzy foi demitido do Black Sabbath

Por Redação RockFuel ·

A versão curta diz que foi por drogas. Mas todos na banda usavam — e só Ozzy foi punido. A história real da demissão mais famosa do heavy metal.

Por que o Ozzy foi demitido do Black Sabbath

Curiosidade RockFuel

No dia 27 de abril de 1979, o Black Sabbath demitiu Ozzy Osbourne, o vocalista que tinha sido a cara da banda desde o primeiro disco, em 1970. A versão curta da história é que ele usava drogas demais. Mas essa versão esconde uma verdade mais desconfortável, que o próprio Ozzy nunca aceitou: todo mundo na banda estava afundado em drogas e álcool. Ele só foi o único a pagar a conta.

Para entender por que isso aconteceu, vale voltar ao fim dos anos 70. O Black Sabbath já tinha vendido dezenas de milhões de discos e era reverenciado como uma das bandas que inventaram o heavy metal. Mas, por dentro, estava em frangalhos. As gravações de Never Say Die!, de 1978, feitas em Toronto ao longo de cinco meses, foram dominadas pelo uso pesado de drogas. Tony Iommi admitiu depois que os ensaios intermináveis e a névoa química tornavam quase impossível registrar boas tomadas.

O consumo não era novidade nem exclusividade de Ozzy. Durante as sessões de Vol. 4, em 1972, a banda gastou uma fortuna em cocaína, segundo relatos mais do que o custo de gravar o próprio álbum. Geezer Butler resumiu o período de forma direta: todo mundo estava fora de si o tempo todo. Esse é o pano de fundo que a versão simplificada costuma esquecer.

O motivo oficial da demissão foi falta de confiabilidade. No início de 1979, a banda alugou uma casa em Bel Air, em Los Angeles, para escrever o próximo disco. A ideia era trabalhar em material novo, mas, segundo Iommi, Ozzy simplesmente parou de aparecer e demonstrava pouco interesse pelas novas ideias: a banda criava riffs e ele se recusava a cantar por cima deles.

Iommi foi categórico ao descrever o momento, anos depois. A essa altura, Ozzy tinha chegado ao fim. Estavam todos usando muita droga, mas Ozzy estava, nas palavras do guitarrista, num nível completamente diferente. Para ele, só havia duas saídas: demitir o vocalista ou acabar com a banda de vez.

Havia também um episódio que virou símbolo dessa fase. Antes de um show em Nashville, em novembro de 1978, Ozzy desapareceu após uma noitada de cocaína com David Lee Roth, do Van Halen, banda que abria os shows do Sabbath naquela turnê. Sumiços assim minaram a confiança do resto do grupo no frontman.

A forma como tudo aconteceu também marca a história. Quem foi escolhido para comunicar a demissão a Ozzy foi Bill Ward, o baterista, justamente o integrante mais próximo dele. Ward carregou esse peso e admitiu depois que talvez não tenha sido profissional no momento, reconhecendo que o álcool foi uma das coisas mais destrutivas para o Black Sabbath e que a banda estava se autodestruindo.

O próprio Ozzy entendeu o recado pelo mensageiro. Ele relembrou que estava chapado, mas estava chapado o tempo todo naquele período, e que ficou óbvio que Bill tinha sido enviado pelos outros, porque não era exatamente do tipo que demite alguém. O detalhe é cruel: mandaram o melhor amigo dar a pior notícia.

Ozzy nunca engoliu a versão oficial. O argumento dele era simples e, pela maioria dos relatos, não estava errado: todos no Black Sabbath estavam mergulhados em drogas e álcool naquele momento. A diferença é que ele foi o único punido por isso.

Há um precedente que dá força ao ponto de vista dele. Em 1977, Bill Ward chegou a demitir Geezer Butler brevemente por não parecer mais interessado, só para reintegrá-lo duas semanas depois com um telefonema casual. O Sabbath já tinha histórico de demissões internas que depois eram revertidas, o que reforça a leitura de que Ozzy acabou virando bode expiatório de um problema coletivo.

Ainda assim, mesmo Iommi reconheceu uma nuance: embora todos bebessem, fumassem e usassem drogas nos anos 70, Ozzy tinha o estilo de vida mais insalubre de todos, e mesmo assim costumava ser o último de pé quando os outros já tinham apagado. A verdade, como quase sempre, fica em algum lugar entre as duas versões.

A demissão parecia o fim da linha. Ozzy passou os três meses seguintes trancado num quarto de hotel em Los Angeles, consumindo álcool e drogas todos os dias, convencido de que a carreira tinha acabado. Não tinha banda, nem plano, nem ideia do que viria.

O que veio foi Sharon Arden. Don Arden, o empresário que cuidava do Sabbath, mandou a filha a Los Angeles para tomar conta de Ozzy e proteger o investimento da família. Sharon encontrou um homem em ruínas e ajudaria a reconstruir a carreira dele do zero. Anos depois, os dois se casariam, e ela se tornaria a gestora de uma das carreiras solo mais bem-sucedidas da história do rock.

O Black Sabbath, por sua vez, contratou Ronnie James Dio, ex-Rainbow, e gravou Heaven and Hell, de 1980, considerado até hoje um dos melhores discos da banda. Os dois caminhos deram certo. Mas a ferida daquela manhã de abril em Los Angeles nunca cicatrizou de verdade, mesmo com as várias reuniões que viriam nas décadas seguintes.

Análise RockFuel

No fim, a demissão de Ozzy é um daqueles momentos em que a história do rock parece roteiro de cinema: o cara expulso da própria banda, no fundo do poço, que renasce maior do que nunca. Mas o que torna o episódio interessante não é a redenção, e sim a injustiça parcial no centro dele.

Ozzy não foi demitido por ser o único viciado, e sim por ser o rosto mais visível de um problema que pertencia a todos, num momento em que a banda precisava de um culpado para seguir em frente.

Iommi não estava mentindo ao dizer que Ozzy tinha chegado ao limite, e Ozzy não estava mentindo ao dizer que não era o único. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e quase sempre são. E foi essa demissão dolorosa que separou os caminhos e deu ao mundo tanto o Heaven and Hell quanto o Blizzard of Ozz. Às vezes, a porta que fecha é a mesma que empurra para a frente.

Fontes e referências

  • Black Sabbath

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