Trelldom afunda ainda mais no experimental com …BY THE WORD…
Por Redação RockFuel ·
O novo disco do Trelldom desafia o que se entende por black metal tradicional, trazendo ambientes sombrios e experimentações que incomodam e intrigam na mesma medida.

Imagem: Foto: Reprodução / metal-hammer.de
Introdução e contexto
Desde o início dos anos 2000, o Trelldom se firmou como uma voz própria na cena do black metal norueguês — em grande parte graças à presença do lendário Gaahl, ex-vocalista do Gorgoroth. Tom agressivo, atmosfera sombria, black metal cru no melhor estilo escandinavo. Era o que se esperava da banda. Mas a partir de …By the Shadows…, lançado em 2021, essa identidade deu uma guinada ousada. Agora, com …By the Word…, o Trelldom vai ainda mais fundo — e coloca um ponto bem distante do que qualquer fã de black metal clássico esperaria encontrar.
Uma nova faceta sonora
Quem chegar nas oito faixas do álbum esperando riffs furiosos, blast beats e aquela atmosfera quase ritualística do black metal tradicional vai se decepcionar. …By the Word… é uma continuação natural de …By the Shadows…, só que mais funda na experimentação. O disco aposta em texturas ambientais, melodias dissonantes e passagens quase minimalistas. Em certos momentos, você se pergunta se aquele saxofone estranho ao fundo é real ou coisa da sua cabeça — e sim, o instrumento está lá, quebrando qualquer referência óbvia ao gênero.
Essa escolha vai irritar quem carrega no peito o purismo do black metal norueguês dos anos 1990. Mas se você abrir mão do imediatismo e aceitar um quadro mais abstrato, a densidade sonora da obra começa a fazer sentido. A palheta tradicional do gênero aparece em poucos momentos, quase como um fantasma. Ainda assim, a produção assinada por Eirik Hundvin — o Pytten, referência absoluta nas gravações clássicas do estilo — garante que a alma black metal ainda respire por trás do véu experimental.
O peso de Gaahl e Stian Kårstad
Gaahl não aparece aqui pelo peso vocal que é sua marca registrada. A performance está mais recitada, quase sussurrada, como se o vocalista buscasse um tom introspectivo no lugar da raiva de sempre. Stian Kårstad, cofundador e guitarrista, mergulha em paisagens sonoras e atmosferas densas, deixando o riff tradicional de lado em favor de cascatas de som que oscilam entre a melancolia e o desconforto.
A combinação rende um álbum que transita por territórios pouco explorados dentro do black metal — mais próximo do ambient e da vanguarda sonora do que de qualquer coisa que você associaria ao gênero. A sensação é de ficar preso entre ondas de sons que não se encaixam com facilidade, numa paisagem musical fragmentada e escura.
Análise RockFuel
Aqui no RockFuel, somos fãs do que o metal pode oferecer em termos de diversidade sonora — mas …By the Word… nos deixa divididos. A coragem do Trelldom em abandonar fórmulas prontas e seguir um caminho arriscado é inegável. Quem busca agressividade e velocidade vai sair frustrado. Quem tem paciência para decifrar camadas e detalhes sutis pode encontrar algo genuinamente interessante.
Por outro lado, o uso insistente de ambientes ruidosos, melodias angulosas e saxofone soa desconexo para quem espera a vivacidade e a crueldade clássicas do gênero. O disco funciona como um exercício de tensão nervosa — não é algo para se escutar no piloto automático, e definitivamente não é trilha sonora de mosh pit. A recomendação direta é essa: prepare a cabeça para um trabalho avant-garde, que desafia a percepção do que o metal é e pode ser.
…By the Word… não será para todo mundo. Mas merece seu espaço para quem encara o black metal sem amarras e está disposto a explorar os cantos mais obscuros e estranhos do gênero. Vale o investimento? Depende do seu nível de paciência — e de curiosidade.
Detalhes técnicos
Gravado no mítico Grieghallen Studio — onde boa parte dos álbuns fundamentais do black metal foi registrada —, o disco conecta passado e presente mesmo que o resultado musical seja um território completamente diferente. A escolha de Pytten para produzir é, por si só, um convite para refletir sobre o que o gênero se tornou.
…By the Word… foi lançado pela Season of Mist e pode ser um divisor de águas para quem acompanha a música pesada mais experimental, longe do que a gente normalmente chama de black metal. Mesmo para fãs do Gaahl, o trabalho exige paciência e mente aberta. Se você está cansado das mesmices ou curioso para ver até onde o black metal pode ir em desconstrução, vale conferir.
O black metal norueguês encontrou no Brasil uma recepção surpreendente ao longo das décadas — influenciando diretamente artistas nacionais e mantendo uma comunidade underground ativa e curiosa. O trabalho experimental do Trelldom chega aqui por meio de selos independentes e plataformas digitais, e o tipo de ouvinte que busca esse nicho no Brasil raramente se contenta com rótulos fáceis.
Com informações de Review: Trelldom :: …BY THE WORD….