Rainbow e o aniversário de 50 anos de Rising: Ritchie Blackmore revisita o passado
Por Redação RockFuel ·
Quando o Deep Purple deixou de ser o palco de Ritchie Blackmore, o guitarrista encontrou no Rainbow o espaço para afirmar sua raiva e buscar liberdade. Hoje, Rising completa 50 anos, mostrando como a banda criou seu próprio caminho no rock pesado.

Imagem: Foto: Reprodução / ultimateclassicrock.com
O momento da virada na carreira de Ritchie Blackmore
Em meados dos anos 70, a relação de Ritchie Blackmore com o Deep Purple já estava por um fio. O guitarrista, uma das figuras centrais do hard rock britânico, não encontrava mais motivação na banda que ajudou a construir. Em entrevista recente, Blackmore não escondeu a insatisfação — e foi honesto o suficiente para admitir que parte do problema vinha dele mesmo. Para ele, o Deep Purple havia virado uma espécie de comitê, com opiniões demais se chocando o tempo todo, o que minava a produtividade e o foco musical do grupo.
Depois de sete anos dentro daquela dinâmica, ele queria outra coisa. Uma liberdade que o Purple já não conseguia dar.
Rainbow nasce da necessidade de renovação
Foi assim que, em 1975, Blackmore formou o Rainbow, reunindo novos músicos e trazendo Ronnie James Dio para os vocais. O box de colecionador The Temple of the King: 1975-1976 revive essa fase inicial do grupo com uma imersão nos dois primeiros discos: Ritchie Blackmore's Rainbow (1975) e Rising (1976), este último completando agora cinco décadas.
Avesso a entrevistas, Blackmore abriu uma exceção e revisitou essas obras com rara franqueza — incluindo histórias inéditas, como o curioso episódio em que Christopher Cross o substituiu no palco por uma noite, durante um show em San Antonio.
A química criativa entre Blackmore e Dio
Sobre a parceria com Dio, Ritchie foi direto: havia um entendimento raro entre os dois, tanto em estúdio quanto no palco. Ronnie, com seu passado como trompetista de orquestra, entendia música de forma profunda e quase imediata. Nos ensaios, bastava Blackmore sussurrar uma ideia para Dio captar o conceito na hora.
O guitarrista chegou a admitir que nem sempre entendia os próprios versos — como o título Man on the Silver Mountain — mas via nisso parte da liberdade poética do heavy metal da época, onde as metáforas abriam espaço para a imaginação do ouvinte.
As gravações que revelam dúvidas e descobertas
A produção do primeiro álbum foi marcada por incertezas. Blackmore admitiu que não tinha um plano claro: tocou o que vinha à cabeça, dividindo-se entre melodias suaves e momentos mais pesados. No disco seguinte, o caminho estava mais definido — um rock pesado com peso dramático e melódico, especialmente em faixas como "Stargazer".
Ao lado de Dio, Cozy Powell completava o núcleo criativo com sua pegada contundente. Juntos, os três encontraram um groove que se distanciava do ambiente de comitê do Deep Purple para criar algo mais coeso, agressivo e honesto.
A raiva e o improviso como combustível no palco
As apresentações ao vivo daquele período tinham contornos próprios. Blackmore revelou que gostava de improvisar nos shows, transformando as músicas noite após noite — o que frequentemente surpreendia até quem já conhecia o repertório. Seu combustível no palco era uma raiva real, uma energia crua que se conectava diretamente com o público.
"Nós três éramos caras raivosos", admitiu Blackmore, referindo-se a Dio e Cozy. Essa raiva funcionou como válvula de escape — intensificada, inclusive, pela rejeição das rádios inglesas, que evitavam tocar algo pesado demais. A resposta veio das plateias lotadas, que provavam que havia um espaço enorme esperando por aquele rock levado ao limite.
Análise RockFuel
Olhando para esses relatos, fica claro que o Rainbow nasceu de uma necessidade pessoal e artística de Blackmore — cansado do ambiente burocrático e cheio de egos do Deep Purple. O segredo da banda foi encontrar em Dio e Cozy Powell parceiros alinhados, capazes de canalizar técnica, fúria e melodia ao mesmo tempo.
Ao revisitar Rising no seu cinquentenário, enxergamos não só a construção de um clássico, mas o teste de fogo que consolidou a identidade do grupo. Blackmore admite as dúvidas, mas sua vontade de avançar e experimentar fala mais alto. Entre incertezas, canções rápidas e composições inspiradas, o Rainbow foi o momento em que a alma do rock concentrou dores, lutas internas e paixão genuína pela música.
Para nós do RockFuel, é mais do que um aniversário: é a chance de entender como o rock pode nascer do conflito e se tornar canal direto de intensidade emocional real. Quem olha só para os hits perde o melhor ingrediente dessa história.
O Brasil tem uma das maiores e mais leais torcidas do Deep Purple e do Rainbow no mundo. Ritchie Blackmore conhece bem esse público — e sabe que cada vez que o tema "Rising" ou "Stargazer" surge numa entrevista, os fãs brasileiros redobram a atenção. O aniversário de 50 anos desse álbum é celebrado por aqui com o mesmo fervor de quem ouviu o disco pela primeira vez numa tarde de vinil.
Com informações de Rainbow’s ‘Rising’ at 50: Ritchie Blackmore Looks Back.